Editorial

 

ÍNDICE

 ARTES E CULTURA

“Arte contemporânea I: a arte para todos” – Gper Aeon

“Second Life®: Uni-cultura, Multi-cultura, Meta-cultura?” – Gwyneth Llewelyn

“Meta-jogos: a inserção do RPG no Second Life” – Fabiano Taurus

“Convergências: uma pesquisa sobre revistas inworld, outworld e blogs relacionados a metaversos” – Gabriela Pinelli

 
ARTES VISUAIS

“Uma deriva em espaço artístico” – Gper Aeon (com a participação de Juliah Zauber, Kon Magic, Anaiara Lauria)

 
LITERATURA

“Um bom rapaz” – Rodrigo Siabonne

“Catharsis” – Gper Aeon

“Noturno” – Rediqueti Overland

  

EDITORIAL

A necessidade e a impossibilidade de uma revista de arte nos metaversos

Nunca foi o meu desejo editar uma revista. Pelo contrário, editar esta revista foi uma necessidade. Desde o primeiro contato que tive com a questão da arte, virtualidade ou, mais especificamente, arte dentro dos metaversos, percebi que o debate não tinha fôlego ou sequer existia.

Logo percebi porque tal debate não ocorria na conjuntura atual. A grande dificuldade em se realizar essa discussão, fora da presença de alguns pouquíssimos interessados, acabou por favorecer o agrupamento para a organização de uma iniciativa coletiva, uma revista foi a escolha possível dentro dessas necessidades.

Esta é uma revista que foi pensada de dentro do metaverso em três dimensões da empresa Linden Lab. Um metaverso, grosso modo, seria um ambiente de imersão em que há possibilidade de criação visual e comunicação humana. Foi nesse contexto que criamos esta revista que, além de ser “in”, é também “de fora” do metaverso. Arriscaria dizer que, na verdade, ela seria mais “outsider”, pois propõe discussões que vão além do metaverso da Linden Lab.

Como muitos devem saber, construir uma revista coletivamente é muito mais difícil do que publicar algo sozinho. Principalmente uma revista com as pretensões de: rever, registrar, revisar e referenciar o que existe de parecido com ela. Desse modo, a Convergências é uma revista de arte, cultura e tecnologia, com um aporte em metaversos, especialmente nas experiências que acontecem no Second Life da Linden Lab.

Pela dificuldade no desenvolvimento, editoração e trabalho com a revista, a publicação não se pretende periódica. Ao se entender assim, reafirma a sua consciência de rever o que aconteceu até a presente data sobre a discussão de arte nos metaversos. A partir de agora buscará registrar a discussão sobre arte nos aspectos que ela alcançar através das iniciativas individuais que aqui surgir em forma de análises e críticas. Também revisará outras análises encontradas ou em desenvolvimento, assim como se permitirá criticar e analisar ela mesma, uma vez que, nesse movimento todo, a revista não se distancia do que existe, vivendo suas dificuldades inerentes.

Dessas dificuldades é necessário fazer mais algumas observações que acabam por revelar a possibilidade e a impossibilidade de uma revista do tipo da “Convergências”.

Este número mostra a potencialidade visual e prática que uma revista – um agrupamento de indivíduos que propõem uma iniciativa de publicação – possui. Por diversos motivos esta publicação não se realiza integralmente. É importante ter em mente que esse cenário se forma em um metaverso como esforço de construção, ao mesmo tempo em que se exteriorizam as idéias através da efetivação desta publicação em um website. E provocativamente: publicamos no metaverso apenas uma capa seguida de páginas em branco e aqui estão os textos disponíveis aos leitores.

Os motivos dessa publicação “de nada” dentro do metaverso da Linden Lab se deve à dificuldade em se articular os produtores gráficos, que se vêem fazendo atividades voltadas para a simulação do comércio. Porém, o ato de publicar páginas em branco, é também uma publicação. Desse modo, acabamos por publicar no primeiro número da Revista Convergências o grande problema dos metaversos: a dificuldade em se constituir o desconhecido. No caso, o desconhecido é a discussão do que vem a ser arte relacionada aos metaversos.

É possível pensar que nos metaversos a potência humana é mais fácil de realizar, uma vez que os meios materiais são mais baratos ou de custo muito reduzido ou então nenhum custo. Lembro-lhes que estou falando do indivíduo já familiarizado com o metaverso, aquele que já possui o computador e a conexão com a internet. É nesse ambiente de possibilidades em que todos podem produzir que as frustrações parecem encontrar campo muito mais fértil para se expandir entre as pessoas.

Tal constatação é compatível com a tese do avanço dos meios de reprodução técnica e também da produção que existe desde o início do século XX. Como todos dentro de um metaverso possuem acesso aos meios de produção (ferramentas de criação de roupas, prédios, texturas, etc., restando apenas a técnica e o treino, não necessariamente nessa ordem), tenta-se produzir aquilo que todos já produzem ou o que a todos interessa, como se houvesse uma necessidade de mimetizar o ritual de produção e reprodução dos outros sob a motivação dos recursos financeiros que se pode ter em retorno a essas atividades ou, meramente, para se ter atenção ao trabalho realizado.

Aqui chamo “trabalho no metaverso” tudo aquilo que é produzido por meio de seus materiais fundamentais, as construções visuais, e tudo que dela vem em termos de propagação. Pelo parentesco com o uso da imagem no dia a dia, tais construções se fazem quase como em um marketing constante que as difundem ou, pela quantidade absurda de imagens, são recalcadas e presas aos inventários.

Tendo isso em vista, como uma publicação ampla em arte e cultura, é inevitável discutir também amplamente a tecnologia em suas interseções. Os artigos, matérias, críticas, dentre outros textos, serão muitas vezes concisos, sem perder a potência e o espírito de apresentar uma cartografia das possibilidades no ciberespaço em três dimensões.

A revista, assim, torna-se minimalista e com pretensões não muito ousadas na medida em que se faz enquanto um experimento por si só. Por isso, pretende provocar, mas sem perder de vista que a maior provocação e escândalo que pode haver a partir dela é a sua própria existência.

Para cumprir com o seu papel, a revista ativa três de suas seções: Artes e cultura; Artes Visuais; e Literatura. Na seção Artes e cultura, temos o texto “Arte Contemporânea I: a arte para todos”, de Gper Aeon; “Second Life®: uni-cultura, multi-cultura, meta-cultura?”, de Gwyneth Llewelyn; o texto de Fabiano Taurus, “O RPG e metaversos”; e o trabalho de Gabriela Pinelli, intitulado “Convergências: uma pesquisa sobre revistas inworld, outworld e blogs relacionados a metaversos”. Nessa primeira parte da revista já temos uma configuração do tom das discussões que propomos tanto coletivamente quanto individualmente, configurando uma voz já própria da revista.

Na seção chamada Artes Visuais, trazemos apenas um texto, mas com a colaboração de Juliah Zauber, Kon Magic e Anaiara Lauria. Gper Aeon procurou ativar uma experiência praticamente inexistente em metaversos, a exposição de olhares sobre trabalhos expostos em galerias. As três convidadas foram incitadas a descrever, comentar ou analisar obras a sua escolha. O resultado é a comparação possível a qualquer leitor a partir das vozes das três convidadas.

A terceira seção apresenta alguns trabalhos de Literatura. Rodrigo Siabonne mostra o seu poema “Um bom rapaz”, Gper Aeon apresenta “Catharsis”, e a Rediqueti Overland traz o conto “Noturno”.

Com essa formação a revista Convergências se apresenta ao público e aguarda comentários, críticas e contribuições em fluxo contínuo.

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Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário

Noturno

por Rediqueti Overland*

Poderia não ser desse jeito. Poderia ser outro meu destino, minha tarefa de mestre-de-cerimônias num ritual que conheço de cor. O pensamento me passa rápido, é só um flash espocando sobre nossos corpos que já começam a arfar, Peter e eu ajoelhados, ele meio arrancando meio rasgando o vestido que se cola em mim como uma segunda pele e resiste em curvas e reentrâncias. Mas não, assim não, protesto, afastando-lhe a mão e obrigando-o a deitar-se de costas no carpete branco e macio, nesta brancura que me envolve vinda de paredes, sofás, até dos quadros com suas pinceladas mínimas de cinzas e azuis e rosas evidenciando ainda mais esta sala inacreditavelmente clara a emoldurar nossas silhuetas enlouquecidas. Meu vestido é agora uma mancha de sangue no chão, ao lado, enquanto vou deslizando sobre Peter – chamo-o de Peter sem saber como chamá-lo, com seus cabelos de trigo e pálidos olhos azuis postos em mim baços de desejo, as mãos ensaiando o gesto de alçar-se e segurar meus seios. Não deixo. Prendendo-lhe os quadris com força entre minhas coxas, balanço um pouco, ondulo, faço com que sinta a maciez de minhas nádegas achatando-lhe o sexo, empurrando, luta ferrenha entre carne e rigidez que busca seu natural destino. Ergo lentamente os braços, no caminho levantando os cabelos, que ele me coma primeiro com os olhos, que veja bem os mamilos rijos apontando para seu rosto, depois me inclino para a frente e brinco, esfregando-lhe ora um ora outro seio nos lábios, mas não permitindo nunca que dentes me prendam, que a língua ávida toque a carne. Rebolo mais, ele geme, então concedo e me arrasto para trás, para que perceba meus líquidos, para que se umedeça em minha fonte e também para que seu pênis massageie cada centímetro de meu sexo incandescente. Ainda não quero a penetração. Acaricio-o, empunho sua arma orgulhosa, manuseio-a, e vou me afastando mais, deixando que agora meus seios substituam as mãos, e é ali, no regaço de meu busto, que mais entendo a urgência de um homem, a luta titânica para adiar um prazer que não posso desperdiçar. Seu jorro poderia vir neste exato instante, penso, escorrendo em minha pele, atingindo-me a boca, o pescoço, os cabelos. Eu depois espalharia lentamente cada gota de sêmen pela face, me lambuzaria de sexo, desceria as mãos pela barriga, pelo púbis e iria untar desse modo o clítoris ante o sôfrego olhar de Peter. Poderia ser assim. Mas então Peter teria uma história a contar amanhã, o alvorecer viria surpreender-me enrodilhada em seus braços neste apartamento branco com toques leves em tons pastel e nada mais haveria a fazer e ele seria outro qualquer, não Peter, não este que me escolheu esta noite e que por isso foi por mim escolhido. Não. Endireito-me, torno a sentar-me em sua barriga, dou-lhe tempo de se refazer, sorrio e estendo o braço para o esquecido drinque na mesinha. Ai, ele suspira, a mão em minha coxa, traçando a firmeza do músculo que ainda o imobiliza. Não faça assim, não me enlouqueça, doçura. Ele ainda não provou meu gosto, não suspeita que se equivoca. Balanço de novo os cabelos, sei o efeito que esta minha flamejante cabeleira causa, o fogo que acende quando se reflete em meus olhos verdes. Finjo que beberico o uísque, rebolo, traço uma trilha úmida agora para frente, seu peito bronzeado de sol tornando-me ainda mais translúcida. Ele cerra os olhos, geme, mas já rompi a trégua, apoio os joelhos em ambos os lados de sua cabeça e desço. Agora faço uma lenta dança do ventre, para frente e para trás, para frente e para trás, é seu rosto que vou fodendo, seus lábios, a língua incerta que ainda não achou o compasso. Lamba, depressa, assim, isso, ahnnn. Com uma das mãos para trás tateio, quero retribuir, ali está, impossivelmente rijo, impossivelmente aço. Correnteza de pura delícia, Peter agora alterna entre açoite e roçar de asas, lábios e dentes. Me imobilizo um segundo, aqui, vê?, pode morder um pouquinho, chupar, enfie a língua agora, tire, e sublinho as palavras com o pulsar de meus dedos da glande até a raiz. De novo se aproxima o momento da lava, mas não, segure, prolongue, como se possuísse só este instante e nenhum outro, nunca mais, contenha-se, respire, nenhuma gota poderia se perder, nenhuma gota, pois cada uma será amanhã uma batida de meu coração. Você não sabe, Peter, nem saberá. Por isso tem de chegar ainda mais alto, ainda mais fundo, ainda mais intenso para perder-se num delírio do qual não verá o fim. Por isso venha agora, me acaricie, lamba meu corpo inteiro, coma, explore. Caio ao lado e puxo seus braços, aceito seu pênis tateando meu rosto o pescoço os seios o umbigo o púbis as coxas. Aceito quando me deita de bruços e repete a trilha da nuca ao estreito caminho entre nádegas, permito que espie o ânus e busque o outro ninho, que chegue até o limiar e se agite na urgência de irromper num recinto que por enquanto é apenas alvo, sonho, objeto de um desejo que incha como um animal alucinado. Não fico passiva, ajudo, numa louca coreografia me tornando serpente e cavalo bravio, corcoveando e ondulando, e não grito quando seus dentes se cravam em minha nuca, tímida projeção do que virá logo mais, a criatura se contorcendo dentro da criatura, meu semelhante, meu irmão, meu outro que habita todo ser humano. Ele entrou em meu jogo, e as espirais vão acontecendo, elipses, rotação, em que chegamos perto e nos afastamos do descontrole total. Sim, me foda, me trepe, me sinta, realize cada fantasia, Peter, você a quem chamo de Peter na falta de um nome para sua face de dono-do-mundo. Você que me trouxe para este apartamento em sua Mercedes prateada, desfiando histórias galantes e de antemão se congratulando pela boa sorte de mais uma conquista, mais uma noite a arquivar na galeria de eventos extraordinários. Enquanto isso eu sorria e fingia não ver os dedos casualmente pousados em meu joelho, sorria acompanhando o fio de seus pensamentos, sorria como agora, neste momento em que você, com sua impaciência, enfia as mãos por debaixo de minha barriga e me puxa, você quer ir até o fim, já não suporta mais, e se mostra até um pouco desajeitado, sei que preciso de novo agarrá-lo pelos cabelos e tirá-lo do rodamoinho, e então escapo, deixo-o arfante abraçando o nada, ainda num ritmo que não pára de crescer. Respiro também, de olhos fechados vou incursionando por cada uma de minhas veias, sentindo o tamborilar que se enfraquece nas têmporas, quase sem perceber toco dois dedos no pescoço e sei então que tenho poucos minutos, talvez segundos, e me agito inteira, a força poderosa se irradiando do útero, percorrendo fibras, aquecendo de antecipação, latejando na vagina enquanto Peter me olha, de joelhos outra vez, o pênis teso que aponta o inacreditável teto de vidro por onde poderíamos ver as constelações se São Paulo ainda mostrasse suas estrelas. Com gestos de gato vou chegando, abraço-o, mordo-lhe a orelha, umedeço de saliva o pescoço, subo com a boca e prendo nos dentes seu lábio inferior, sufoco seus gemidos com um beijo e o empurro de novo para trás. Não precisamos de mãos desta vez, sinto a glande e depois o resto de seu pênis se regozijando em meu túnel estreito, sinto quando me toca no fundo e como parece pulsar a cada movimento meu em que subo e desço cavalgando este homem que é agora meu homem, meu supremo prazer, este homem que viverá em mim por toda a eternidade. Nossa cadência torna-se única, e se acelera, se agita, se recompõe com nossos gritos misturados, nossos sussurros, nossas frases de sim, agora sim, vai fundo, quero mais, você é incrível, doçura, quase nunca, há quanto tempo, mais, ai como você sabe foder, minha linda, e de repente quero que se cale, que não empane este ritual que não precisaria ser assim, que poderia não ser o último para você, como você não precisaria ser este Peter que me escolheu e que por isso foi por mim escolhido para alimentar esta minha sede, esta minha fome, este avassalador momento em que atingimos o orgasmo e te sufoco o berro de macho porque acabei de cravar os dentes em tua jugular e estou bebendo o sangue, deixando que teu sangue e não teu sêmen me inunde o rosto, o pescoço, os seios, uma orgia de morte para que eu possa continuar vivendo minha vida de noturna criatura das sombras.

*Conhecida na net como Red Cat, editora da revista “O Caixote” desde 1998.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário

Arte Contemporânea I: a arte para todos

por Gper Aeon*

Para pensar a arte existem vários caminhos. No século XX um desses se popularizou e acabou se tornando uma linguagem da crítica, uma forma da crítica se expressar e entender o objeto, possibilitando a diferenciação de um meio artístico para outro.

Sabemos, em um plano óbvio, que uma fotografia, e os elementos que a encaixam no grupo artístico que chamamos “fotografia artística”, não é o mesmo que uma pintura artística. Esses elementos que constituem a pintura, a fotografia, a música, o poema, etc., são elementos semióticos, ou seja, elementos que ligados às várias expressões de cada tipo de arte acabam formando-a, constituindo-a. Esses são elementos de representação que a arte possui.

Como disse, essa visão de que fotografia é fotografia e pintura é pintura é algo óbvio de um modo geral ou, ao menos, algo em que a maioria das pessoas não está questionando por se incomodarem com tal classificação. Por exemplo, se alguém divulgar que realizará um concerto e no concerto as pessoas escutarem apenas um grito de 10 segundos, as pessoas questionarão se aquilo é música. O mesmo ocorre se alguém pintar um retrato de outra pessoa em uma tela e disser que aquilo é um filme. As pessoas se acostumaram com algumas classificações dos campos artísticos..

Porém, da perspectiva da crítica ou do entendimento do que é a obra de arte para usufruí-la, saber as diferenciações entre os campos artíticos é essencial.

Foram as vanguardas do início do século XX que, no intuito de suprimir a arte (Dada, 1916) e realilzar a arte (Surrealismo, 1924), que acabaram por embaralhar os campos e linguagens, trazendo elementos semióticos de uma para outra. Então houveram romances trazendo fotografias em suas páginas, pinturas que incorporaram palavras, letras, etc.

Desde a proliferação do binário, do digital no mundo contemporâneo, existe um fluxo de discussões no campo artístico que procura determinar o que é arte digital. Após o advento da internet, outros conceitos se popularizaram, tais como arte virtual e ciberarte. Essas expressões e impressões sobre arte remetem à criatividade e sua aplicação em meios não convencionais do mundo artístico.

Com as práticas das vanguardas artísticas de meados do século XX, todas muito influenciadas pela perspectiva visual, inclusive algumas brasileiras, tais como o Concretismo (1950) e o Neoconcretismo (1959), descobrimos que o poema, ao se espacializar, se tornar visual e explorar mais o vocal, não deixa de ser poema, pois este continuou regido por elementos que o constituem como tal, mesmo que elementos e técnicas de outras artes tenham sido agregados.

Então, o que viria a ser a arte em um outro meio, nos metaversos? O que é o “poema”, a “fotografia”, a “pintura” (há pintura? uma vez que ela remete ao ato de pincelar, ao movimento do artista), a “escultura”, a “arquitetura”, o “cinema” (há cinema? ou apenas o exercício de realizar machinima) etc.

Nos metaveros seriam todas essas práticas artísticas apenas uma simulação da arte de fora desses ambientes em 3 dimensões? Seria apenas uma “meta arte”, no sentido de simulação? Ou os meios semióticos que as constituem podem criar a possibilidade de uma nova expressão artística que se equipara àquelas de seu exterior?

Sempre que essa discussão vem a tona sobre o contexto dos metaversos, ou mesmo fora dele, a impressão que tenho é que as pessoas ainda estão no (dentro e fora dos metaversos) século XIX com relação à arte. O mesmo com relação a sua postura frente ao objeto artístico. Algo intocável. Algo cheio de magia. As pessoas, de um modo geral, acham que a arte existe ao menos como algo distante, separado delas, mas algo que é reconhecível quando há décadas os artistas e anti-artistas se expressaram para não sê-lo.

* Gper Aeon é professor, crítico de arte e cultura.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário

Convergências: uma pesquisa sobre revistas inworld, outworld e blogs relacionados a metaversos

                                                  por Gabriela Pinelli*

Este texto propõe refletir sobre as publicações existentes relacionadas aos metaversos. Para se tornar uma proposta palpável, se fez uma pesquisa sobre as publicações a partir da escolha de um dos metaversos existentes. O resultado são os comentários e análises abaixo.

Durante o processo de criação deste texto fiz diversas pesquisas durante quase duas semanas e percorri cinco revistas inworld (dentro do ambiente virtual tridimensional do Second Life – SL): Blá, Fique por Dentro, Interativa, On The Line e SexyLife; duas revistas outworld (fora do SL, ou seja, visualizadas somente em webpage´s): BG Magazine e Innerworld; e nove blog´s: Beta, BLOG BR, BRSECONDLIFE Blog, Canção Nova, De Mattar, Geta, LindenBR Blog, Multiverso Virtual e Mundo Linden, todos com conteúdo diretamente relacionado ao Second Life. Desse modo, este texto é resultado de uma pesquisa comparativa entre as produções existentes relacionadas aos metaversos, especialmente o da Linden Lab, que possui mais usuários dentre todos.

A maioria das revistas (in e outworld) tem um conteúdo focado em: moda, fofoca, erotismo, empreendedorismo ou, simplesmente, variedades. Poucas trazem matérias sobre arte e, quando trazem, são trabalhos genéricos escritos para divulgação de galerias ou museus inworld. Apesar da individualidade de cada uma, todas têm pontos em comum: um primor quando se trata de estética, fotografia e acabamento, superando até a qualidade de muitas revistas publicadas na RL (Real Life); a maioria tem o nome em  inglês (mesmo sendo de origem brasileira) e, salvo um ou outro artigo, conteúdo limitado, interessando apenas aos usuários do SL. Sem contar os conteúdos que nem aos usuários do SL costumam interessar como: entrevista de vencedor de campeonato esportista dentro do SL; reportagem sobre a vida virtual de uma stripper; fofocas sobre casamentos virtuais desfeitos e por aí vai o desrespeito à inteligência do leitor. Obviamente, encontrei textos interessantíssimos como mitos sobre o fim do SL e a sua movimentação de dólares no mercado real; a crise financeira mundial atingindo o mundo virtual; cursos; e o exercício do empreendedorismo dentro do SL… porém, não são a maioria.

 Em compensação, os autores dos blogs, mesmo com um nível estético mais baixo, demonstram-se muito mais interessados em discutir assuntos que interessam. Trazem notícias interligando a RL com o SL; postagens sobre atualização tecnológica; poemas; divagações sobre a interatividade da vida real com a virtual; anúncios de cursos dentro do metaverso, etc.

Uma revista é composta e criada através de pauta, editor, equipe de redação, seções, anunciantes, entre outros itens. Enquanto que um blog contém as postagens (ou simplesmente “posts”) do seu dono e, às vezes, de algum convidado, todos atualizados com uma determinada freqüência.

Infelizmente, as revistas que encontrei despertam a atenção pela sua qualidade gráfica, enquanto que o conteúdo demonstra-se tão vazio quanto devem ser os avatares que assinam as edições (aqui me refiro ao avatar tridimensional e não à pessoa que o comanda). Em contrapartida, talvez por não terem fins comerciais e “nenhum nome virtual a zelar”, os blogueiros ultrapassam os limites do botão de logoff do visualizador do Second Life.

Faz-se necessário esclarecer que o nosso foco não é a crítica de nenhuma revista ou blog em específico, tampouco se comparar a algum destes. Esta análise está centrada na pobreza das publicações relacionadas ao metaverso e, por isso, a necessidade de se realizar críticas e, no caso da Revista Convergências, autocrítica. Mesmo inexistindo qualquer compatibilidade, respeitamos todos os seus criadores que despenderam de tempo e (às vezes) de criatividade na produção dos exemplares. Porém, lamentamos profundamente a falta de preocupação dos seus criadores em apresentar um conteúdo diferente, pensante e, por que não, interativo dentro do Second Life.

O nome “Convergências” não é em vão e remete-nos ao significado sociológico encontrado no dicionário Michaelis: “desenvolvimento independente de elementos culturais semelhantes em culturas diversas, oriundas de princípios, necessidades ou invenções diferentes”.

Não nos encaixamos ao rótulo de “revista inworld”, “revista outworld” ou “blog”. Queremos registrar um momento, fazer as pessoas (re)pensarem sobre seus objetivos no metaverso, estimular a crítica e a autocrítica e, sobretudo, incentivar a reflexão sobre arte.

Com o estímulo da crítica, também seremos alvo dela.

 

* Gabriela Pinelli é bacharela em Direito por formação, defensora de causas impossíveis por opção.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário

Second Life®: Uni-cultura, Multi-cultura, Meta-cultura?

por Gwyneth Llewelyn* 

Em março de 2004, Philip Linden Rosedale, criador do Second Life®, dando uma entrevista para a revista Wired, deixou uma frase para a posteridade, que gosto muito de citar: “Não estou a construir um jogo. Estou a construir um país”. Rosedale afirmou que este mundo virtual era muito mais do que apenas mera tecnologia: incluía, principalmente, as pessoas que habitam o mesmo espaço (embora virtual, continua sendo um espaço) e que, naturalmente, forjam ligações entre si e linguagem, atividades, assuntos comuns. Chamamos isto de “redes sociais”, mas a verdade é que esta característica é comum a todos os seres humanos e faz parte do nosso legado enquanto espécie gregária: criamos cultura.

Ora, inicialmente, o metaverso Second Life (SL), quando era pequeno em dimensão e número de residentes, tinha apenas uma única cultura: todos partilhavam dos mesmos valores, idéias, expectativas e desejos, ou seja, fazíamos todos um pouco as mesmas coisas.

Em 2006/2007, com a explosão de crescimento do SL, de dezenas de milhares de residentes para 3 milhões, num espaço de tempo muito curto, isso tornou-se particularmente notado: os novos residentes, imbuídos de um espírito diferente dos mais antigos, já não se reconheciam ou se reviam na “cultura” predominante. Em vez disso, criavam as suas próprias culturas. Apareceram novas relações entre os residentes e o espaço que os envolvia, espaço esse que se tornou diferente: foi à altura da grande explosão comercial e da integração de presenças virtuais por parte de empresas reais no SL. Muito mudou em pouco tempo: o SL cresceu, tornando-se impossível de o visitar todo; o inglês deixou de ser a língua mais falada no SL (o português passou a ser a segunda língua!); surgiu, quase da noite para o dia, o foco na música ao vivo; os criadores de conteúdo, em vez de serem amadores bem intencionados com muita motivação, passaram a ser substituídos, muito rapidamente, por profissionais (modeladores 3D conhecedores doutras plataformas que passaram a produzir conteúdos no SL). As comunidades segregaram-se, muitas vezes aglomerando-se em torno de uma língua ou de um país, por vezes em torno de um tema ou idéia, e isolaram-se umas das outras. A mainland perdeu a sua importância central — o grosso da atividade no SL passou para as ilhas privadas.

Em vez de uma comunidade e uma cultura, o SL passou a ter múltiplas comunidades e inúmeras culturas, co-existindo no mesmo espaço virtual. Mas não podemos ver esta “segregação” como o fim da “cultura única” no SL. Na realidade, continuam a existir elementos que são comuns a todas as comunidades. Todos nós falamos de prims, de attachments, de animation overriders. Todos nos deslocamos com teleportes e guardamos listas de landmarks. Todos nos juntamos a grupos (e todos os grupos funcionam de forma semelhante). A aquisição de propriedade virtual é comum a todo o SL e tem as mesmas limitações. O lag é um assunto de conversa constante — tal como, na vida real, todos podemos discutir “como está o tempo”. As políticas e novas regras impostas pela Linden Lab afetam a todos.

Assim, apesar de podermos afirmar existirem culturas muito diferentes no SL, com objetivos distintos (comparem o trabalho de uma universidade, criando o seu campus virtual no SL, com uma área de role-play como as ilhas goreanas ou as comunidades de furries ou de fãs do steampunk, Star Trek/Star Wars, e assim por diante), existe, no entanto, um conjunto de elementos comuns a todas elas. Chamo a isso a meta-cultura do Second Life, e esta será sempre distinta de outras culturas humanas (logo, tem existência própria), apenas pelo simples fato de estar estritamente ligada a características fundamentais do SL.

Estas até podem mudar — mudarão de certeza! — e decerto surgirão novas e mais diferentes culturas, mas, por continuarem a ser comuns a todos os residentes, serão sempre a base da nossa meta-cultura!

* Gwyneth Llewelyn observa e explora a forma como pessoas transformam e são, por sua vez, transformadas pelo mundo virtual e escreve sobre isso. Na vida real, trabalha como consultora em informática.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário

Meta-jogos: a inserção do RPG no Second Life

por Fabiano Taurus*

O RPG, batizado de Role-Playing Game (jogo de interpretação de personagens), nasceu na década de 70, como uma evolução dos jogos de estratégias e combate que usavam miniaturas, e se tornou afamado com os livros da empresa americana TSR, chamados de Dungeons & Dragons. Sua característica mais marcante é a interpretação de personagens, tornando “ilimitada” a possibilidade de criação dentro do jogo. Com o crescimento de mitos acerca do jogo e seus jogadores, bem como com o avanço do acesso digital à informação, diminuiu-se a visibilidade do jogo aos leigos e às editoras.

Então, como se explicaria o ressurgimento e a explosão do RPG no Second Life? A explicação é conceitual: o RPG e o SL proporcionam aos jogadores a liberdade de decidirem os destinos de seus personagens. Além disso, no SL o jogador tem acesso a um recurso visual e a um mundo fantasioso antes limitado a um tabuleiro ou à imaginação de cada um. Em função do RPG, mesmo com a crescente queda, desde 2007, no número de acessos brasileiros no SL, o número de “usuários freqüentes” tem se mantido devido a essa opção online do RPG dentro do metaverso (podemos encontrar ilhas inteiras destinadas à prática do RPG).

Por natureza, em todo jogo existe um enredo, uma história criada que guiará os personagens envolvidos; e cada personagem tem a sua própria história e personalidade a serem criados pelos jogadores.

É aqui que o lado pedagógico do RPG se faz presente! Por exemplo, se eu quero ser um guerreiro templário, isto exige de mim, ao menos, um conhecimento básico sobre a história. Então, para a criação de um personagem rico, muita leitura e pesquisa se fazem necessários. Neste sentido, o RPG é uma caixa foucaultiana, tendo um valor muito além de um “mero passatempo”, mas servindo de instrumento estimulador para aquisição de novos conhecimentos, para o desenvolvimento perceptivo e, ademais, para a ampliação do horizonte axiológico do jogador que lida com os mais variados valores das mais variadas culturas. E este processo acaba tendo impacto direto na própria vida do jogador, que vê na arte de criação uma maneira de crescimento intelectual, cognitivo e, por que não dizer, afetivo também.

Infelizmente este é um lado que muitos jogadores não se utilizam na versão dentro do SL, talvez devido a necessidade de um longo tempo dedicado à pesquisa; ou por simples ignorância, limitando-se apenas à caracterização visual de seus personagens.

De qualquer maneira, a essência do RPG, seja na versão “de mesa” ou online, é o experimentalismo dentro do jogo, guiado pelas emoções, vivências, valores e verdades de cada personagem.

Se esse experimentalismo do RPG não dirime o preconceito cultural em cada jogador, ao menos projeta aos seus jogadores uma perspectiva difusa do outro “não-igual” existente fora ou dentro de nós.

* Fabiano Taurus tem 31 anos e é licenciado e bacharel em Filosofia, RPGista e escritor nas horas vagas.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário

Catharsis

por Gper Aeon*

E é hoje: dia sem feriado e
sem fresta para escape
mas donde escapa este suspiro
da voz quase rouca onde
surge nos lábios quase
boca que ilude o leitor
quase um suspiro, no som
que o nomeia.

* Gper Aeon é professor, crítico de arte e cultura.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário