Arte Contemporânea I: a arte para todos

por Gper Aeon*

Para pensar a arte existem vários caminhos. No século XX um desses se popularizou e acabou se tornando uma linguagem da crítica, uma forma da crítica se expressar e entender o objeto, possibilitando a diferenciação de um meio artístico para outro.

Sabemos, em um plano óbvio, que uma fotografia, e os elementos que a encaixam no grupo artístico que chamamos “fotografia artística”, não é o mesmo que uma pintura artística. Esses elementos que constituem a pintura, a fotografia, a música, o poema, etc., são elementos semióticos, ou seja, elementos que ligados às várias expressões de cada tipo de arte acabam formando-a, constituindo-a. Esses são elementos de representação que a arte possui.

Como disse, essa visão de que fotografia é fotografia e pintura é pintura é algo óbvio de um modo geral ou, ao menos, algo em que a maioria das pessoas não está questionando por se incomodarem com tal classificação. Por exemplo, se alguém divulgar que realizará um concerto e no concerto as pessoas escutarem apenas um grito de 10 segundos, as pessoas questionarão se aquilo é música. O mesmo ocorre se alguém pintar um retrato de outra pessoa em uma tela e disser que aquilo é um filme. As pessoas se acostumaram com algumas classificações dos campos artísticos..

Porém, da perspectiva da crítica ou do entendimento do que é a obra de arte para usufruí-la, saber as diferenciações entre os campos artíticos é essencial.

Foram as vanguardas do início do século XX que, no intuito de suprimir a arte (Dada, 1916) e realilzar a arte (Surrealismo, 1924), que acabaram por embaralhar os campos e linguagens, trazendo elementos semióticos de uma para outra. Então houveram romances trazendo fotografias em suas páginas, pinturas que incorporaram palavras, letras, etc.

Desde a proliferação do binário, do digital no mundo contemporâneo, existe um fluxo de discussões no campo artístico que procura determinar o que é arte digital. Após o advento da internet, outros conceitos se popularizaram, tais como arte virtual e ciberarte. Essas expressões e impressões sobre arte remetem à criatividade e sua aplicação em meios não convencionais do mundo artístico.

Com as práticas das vanguardas artísticas de meados do século XX, todas muito influenciadas pela perspectiva visual, inclusive algumas brasileiras, tais como o Concretismo (1950) e o Neoconcretismo (1959), descobrimos que o poema, ao se espacializar, se tornar visual e explorar mais o vocal, não deixa de ser poema, pois este continuou regido por elementos que o constituem como tal, mesmo que elementos e técnicas de outras artes tenham sido agregados.

Então, o que viria a ser a arte em um outro meio, nos metaversos? O que é o “poema”, a “fotografia”, a “pintura” (há pintura? uma vez que ela remete ao ato de pincelar, ao movimento do artista), a “escultura”, a “arquitetura”, o “cinema” (há cinema? ou apenas o exercício de realizar machinima) etc.

Nos metaveros seriam todas essas práticas artísticas apenas uma simulação da arte de fora desses ambientes em 3 dimensões? Seria apenas uma “meta arte”, no sentido de simulação? Ou os meios semióticos que as constituem podem criar a possibilidade de uma nova expressão artística que se equipara àquelas de seu exterior?

Sempre que essa discussão vem a tona sobre o contexto dos metaversos, ou mesmo fora dele, a impressão que tenho é que as pessoas ainda estão no (dentro e fora dos metaversos) século XIX com relação à arte. O mesmo com relação a sua postura frente ao objeto artístico. Algo intocável. Algo cheio de magia. As pessoas, de um modo geral, acham que a arte existe ao menos como algo distante, separado delas, mas algo que é reconhecível quando há décadas os artistas e anti-artistas se expressaram para não sê-lo.

* Gper Aeon é professor, crítico de arte e cultura.

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Esse post foi publicado em Número 1 - julho 2010. Bookmark o link permanente.

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