Noturno

por Rediqueti Overland*

Poderia não ser desse jeito. Poderia ser outro meu destino, minha tarefa de mestre-de-cerimônias num ritual que conheço de cor. O pensamento me passa rápido, é só um flash espocando sobre nossos corpos que já começam a arfar, Peter e eu ajoelhados, ele meio arrancando meio rasgando o vestido que se cola em mim como uma segunda pele e resiste em curvas e reentrâncias. Mas não, assim não, protesto, afastando-lhe a mão e obrigando-o a deitar-se de costas no carpete branco e macio, nesta brancura que me envolve vinda de paredes, sofás, até dos quadros com suas pinceladas mínimas de cinzas e azuis e rosas evidenciando ainda mais esta sala inacreditavelmente clara a emoldurar nossas silhuetas enlouquecidas. Meu vestido é agora uma mancha de sangue no chão, ao lado, enquanto vou deslizando sobre Peter – chamo-o de Peter sem saber como chamá-lo, com seus cabelos de trigo e pálidos olhos azuis postos em mim baços de desejo, as mãos ensaiando o gesto de alçar-se e segurar meus seios. Não deixo. Prendendo-lhe os quadris com força entre minhas coxas, balanço um pouco, ondulo, faço com que sinta a maciez de minhas nádegas achatando-lhe o sexo, empurrando, luta ferrenha entre carne e rigidez que busca seu natural destino. Ergo lentamente os braços, no caminho levantando os cabelos, que ele me coma primeiro com os olhos, que veja bem os mamilos rijos apontando para seu rosto, depois me inclino para a frente e brinco, esfregando-lhe ora um ora outro seio nos lábios, mas não permitindo nunca que dentes me prendam, que a língua ávida toque a carne. Rebolo mais, ele geme, então concedo e me arrasto para trás, para que perceba meus líquidos, para que se umedeça em minha fonte e também para que seu pênis massageie cada centímetro de meu sexo incandescente. Ainda não quero a penetração. Acaricio-o, empunho sua arma orgulhosa, manuseio-a, e vou me afastando mais, deixando que agora meus seios substituam as mãos, e é ali, no regaço de meu busto, que mais entendo a urgência de um homem, a luta titânica para adiar um prazer que não posso desperdiçar. Seu jorro poderia vir neste exato instante, penso, escorrendo em minha pele, atingindo-me a boca, o pescoço, os cabelos. Eu depois espalharia lentamente cada gota de sêmen pela face, me lambuzaria de sexo, desceria as mãos pela barriga, pelo púbis e iria untar desse modo o clítoris ante o sôfrego olhar de Peter. Poderia ser assim. Mas então Peter teria uma história a contar amanhã, o alvorecer viria surpreender-me enrodilhada em seus braços neste apartamento branco com toques leves em tons pastel e nada mais haveria a fazer e ele seria outro qualquer, não Peter, não este que me escolheu esta noite e que por isso foi por mim escolhido. Não. Endireito-me, torno a sentar-me em sua barriga, dou-lhe tempo de se refazer, sorrio e estendo o braço para o esquecido drinque na mesinha. Ai, ele suspira, a mão em minha coxa, traçando a firmeza do músculo que ainda o imobiliza. Não faça assim, não me enlouqueça, doçura. Ele ainda não provou meu gosto, não suspeita que se equivoca. Balanço de novo os cabelos, sei o efeito que esta minha flamejante cabeleira causa, o fogo que acende quando se reflete em meus olhos verdes. Finjo que beberico o uísque, rebolo, traço uma trilha úmida agora para frente, seu peito bronzeado de sol tornando-me ainda mais translúcida. Ele cerra os olhos, geme, mas já rompi a trégua, apoio os joelhos em ambos os lados de sua cabeça e desço. Agora faço uma lenta dança do ventre, para frente e para trás, para frente e para trás, é seu rosto que vou fodendo, seus lábios, a língua incerta que ainda não achou o compasso. Lamba, depressa, assim, isso, ahnnn. Com uma das mãos para trás tateio, quero retribuir, ali está, impossivelmente rijo, impossivelmente aço. Correnteza de pura delícia, Peter agora alterna entre açoite e roçar de asas, lábios e dentes. Me imobilizo um segundo, aqui, vê?, pode morder um pouquinho, chupar, enfie a língua agora, tire, e sublinho as palavras com o pulsar de meus dedos da glande até a raiz. De novo se aproxima o momento da lava, mas não, segure, prolongue, como se possuísse só este instante e nenhum outro, nunca mais, contenha-se, respire, nenhuma gota poderia se perder, nenhuma gota, pois cada uma será amanhã uma batida de meu coração. Você não sabe, Peter, nem saberá. Por isso tem de chegar ainda mais alto, ainda mais fundo, ainda mais intenso para perder-se num delírio do qual não verá o fim. Por isso venha agora, me acaricie, lamba meu corpo inteiro, coma, explore. Caio ao lado e puxo seus braços, aceito seu pênis tateando meu rosto o pescoço os seios o umbigo o púbis as coxas. Aceito quando me deita de bruços e repete a trilha da nuca ao estreito caminho entre nádegas, permito que espie o ânus e busque o outro ninho, que chegue até o limiar e se agite na urgência de irromper num recinto que por enquanto é apenas alvo, sonho, objeto de um desejo que incha como um animal alucinado. Não fico passiva, ajudo, numa louca coreografia me tornando serpente e cavalo bravio, corcoveando e ondulando, e não grito quando seus dentes se cravam em minha nuca, tímida projeção do que virá logo mais, a criatura se contorcendo dentro da criatura, meu semelhante, meu irmão, meu outro que habita todo ser humano. Ele entrou em meu jogo, e as espirais vão acontecendo, elipses, rotação, em que chegamos perto e nos afastamos do descontrole total. Sim, me foda, me trepe, me sinta, realize cada fantasia, Peter, você a quem chamo de Peter na falta de um nome para sua face de dono-do-mundo. Você que me trouxe para este apartamento em sua Mercedes prateada, desfiando histórias galantes e de antemão se congratulando pela boa sorte de mais uma conquista, mais uma noite a arquivar na galeria de eventos extraordinários. Enquanto isso eu sorria e fingia não ver os dedos casualmente pousados em meu joelho, sorria acompanhando o fio de seus pensamentos, sorria como agora, neste momento em que você, com sua impaciência, enfia as mãos por debaixo de minha barriga e me puxa, você quer ir até o fim, já não suporta mais, e se mostra até um pouco desajeitado, sei que preciso de novo agarrá-lo pelos cabelos e tirá-lo do rodamoinho, e então escapo, deixo-o arfante abraçando o nada, ainda num ritmo que não pára de crescer. Respiro também, de olhos fechados vou incursionando por cada uma de minhas veias, sentindo o tamborilar que se enfraquece nas têmporas, quase sem perceber toco dois dedos no pescoço e sei então que tenho poucos minutos, talvez segundos, e me agito inteira, a força poderosa se irradiando do útero, percorrendo fibras, aquecendo de antecipação, latejando na vagina enquanto Peter me olha, de joelhos outra vez, o pênis teso que aponta o inacreditável teto de vidro por onde poderíamos ver as constelações se São Paulo ainda mostrasse suas estrelas. Com gestos de gato vou chegando, abraço-o, mordo-lhe a orelha, umedeço de saliva o pescoço, subo com a boca e prendo nos dentes seu lábio inferior, sufoco seus gemidos com um beijo e o empurro de novo para trás. Não precisamos de mãos desta vez, sinto a glande e depois o resto de seu pênis se regozijando em meu túnel estreito, sinto quando me toca no fundo e como parece pulsar a cada movimento meu em que subo e desço cavalgando este homem que é agora meu homem, meu supremo prazer, este homem que viverá em mim por toda a eternidade. Nossa cadência torna-se única, e se acelera, se agita, se recompõe com nossos gritos misturados, nossos sussurros, nossas frases de sim, agora sim, vai fundo, quero mais, você é incrível, doçura, quase nunca, há quanto tempo, mais, ai como você sabe foder, minha linda, e de repente quero que se cale, que não empane este ritual que não precisaria ser assim, que poderia não ser o último para você, como você não precisaria ser este Peter que me escolheu e que por isso foi por mim escolhido para alimentar esta minha sede, esta minha fome, este avassalador momento em que atingimos o orgasmo e te sufoco o berro de macho porque acabei de cravar os dentes em tua jugular e estou bebendo o sangue, deixando que teu sangue e não teu sêmen me inunde o rosto, o pescoço, os seios, uma orgia de morte para que eu possa continuar vivendo minha vida de noturna criatura das sombras.

*Conhecida na net como Red Cat, editora da revista “O Caixote” desde 1998.

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Esse post foi publicado em Número 1 - julho 2010. Bookmark o link permanente.

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