Um bom rapaz

por Rodrigo Siabonne*

Sempre apostei na demência.
Sempre gostei de estar errado
para quem julga saber a certeza.
Sempre fui veneno,

um carrasco delicado,
amoroso assassino.
Sou um bicho papão,
mau exemplo e elemento.

Sempre fui um problema,
aos outros e a mim,
sempre repudiei meu futuro
nunca dei orgulho para minha mãe.

Meu mal é pensar.
meu mal é nao estar à venda,
meu mal é vender a alma,
aos diabos que me aprazem.

Eu não me amo:
os outros já me amam por mim,
não insisto nas opiniões que eu mudo,
e mudo de idéia rápido demais.

Estou cagando para a elegância,
para a moda,
e para o que Papai do Céu venha a gostar.
falo mal de Deus, mas peço ajuda quando estou com medo.

Eu tenho medo de barata,
e de outras coisas imbecis.
Não tenho paladar fino, como de boca aberta,
arroto e solto pum.

Odeio parecer o bom moço,
mas não consigo evitar.
Sou um falso intelectual,
um falso poeta,

mas um humano verdadeiro.
Onde está a humanidade?
Definhando, me parece.
Preciso de um banho.

* Rodrigo Siabonne é artista por vocação e sobrevivência. Humano convicto, com toda a perfeição errada que a humanidade implica. Descobridor de mundos que morrerão comigo. Sem amor próprio, de coração morimbundo.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário

Uma deriva em espaço artístico

Coordenação de
Gper Aeon*

Participação de
Juliah Zauber
Kon Magic
Anaiara Lauria

Entre as décadas de 1950 e 1960, alguns artistas que se denominavam “anti-artistas” propuseram, no contexto das cidades da época, realizar um exercício de andar pelas cidades. Esse andar seria para verificar a cidade em sua construção e confirmar como tais estruturas se pareciam com outros locais, mantendo a lógica da circulação da mercadoria como característica marcante da modernidade. Esse caminhar era chamado de deriva (http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_da_deriva) não por um acaso. Eles vagavam e descreviam suas impressões sem a objetividade que a circulação das coisas possui.

Propus a três pessoas que fizessem uma deriva em uma galeria de arte chamada Crossworlds Gallery (http://slurl.com/secondlife/lynto%20land/133/116/99). A proposta era descrever concisamente o espaço e cinco obras. Ao mesmo tempo em que a iniciativa se aproxima das ações anti-artísticas contemporâneas, o ato de descrever ou de dar as impressões de algo considerado obra de arte cita também a ação de Denis Diderot, nos Salões do século XVIII, nos quais realizava o que seria o início da crítica de arte.

Desse modo, procuramos ver algumas impressões gerais sobre o que as pessoas chamam de arte dentro de metaversos. Veremos que as percepções são variadas e todas importantes para gerar debates sobre o que é e o que representa tais expressões artísticas.

Abaixo apresento o resultado:

Juliah Zauber

[Descrição do espaço]
Um espaço que imediatamente se identifica como uma galeria real. Positivo: essa identificação imediata já ajuda o visitante a reconhecer o contexto, “estou numa galeria de arte, vou ver quadros e esculturas”. Negativo: não explora nenhuma possibilidade arquitetônica do ambiente sem gravidade.

[As obras]
A – Heart of Steel: era o coração aflitivo no áudio. Foi um alívio descobrir que tem script para desligar o som.
B – Gallery Bench Round: não é obra de arte, é um mecanismo da galeria. Chamou-me a atenção, tentei usar, não consegui. Descobri que não era obra de arte só agora que estou descrevendo.
C – Ordered Anarchists: Descobri quem eram pelo nome da obra. Nove rostos. Aparece mãozinha para tocar, começa um jogo de cores, uns somem, depois voltam…
D – Midnight Mechanism: Antes de carregar bem, parecia só uma engenhoca retrô-modernista. Mas olhando bem, é muito bonito.
E – Cats, pink orange catwoman: Escolhi por afeto: é vermelho, tem uma mulher e um gato, me lembrou uma grande amiga.

Kon Magic

[Descrição do espaço]
Crossworld, uma ótima galeria dentro de uma enorme esfera, com obras lindas de vários artistas do mundo digital. Algumas com animações fabulosas.

[As obras]
A – O quadro Heart of Steel, trata-se de um coração preso e pulsando, ao clicar podemos ouvir o som do mesmo querendo romper sua prisão.
B – Illusive Dreamer mostra um olhar fixo na direção de quem aprecia, mas ao nos aproximarmos os olhos se fecham como que resguardando um segredo nele exposto.
C – AnuVelu, de forma abstrata e bem colorida me passa o sentimento de alegria, não me perguntem o porque, pois esta é minha interpretação, o abstrato nos dá essa liberdade. Cores vibrantes e tom sobre tom de amarelo e suas nuances, me lembra o sol.
D – Tendeness, retrata corpos nus e abraçados. Parece um trabalho feito com lápis de cor e desbotado, propositalmente manchado.
E – Kirle Adamski, dinamarquesa que usa watercollour, pra mim seria aquarela. No quadro Piece ela brinca com as cores usando muito lilás, amarelo, e verde em varias tonalidades. Vejo muitos pássaros e um em destaque bebendo água num cálice.

Anaiara Lauria

[Descrição do espaço]
O local é agradável, bonito, bem organizado. Os quadros muito bem posicionados, a rádio escolhida é de muito bom gosto.

[As obras]
A – Zeeland, the coast – Vejo o mar agitado batendo contra as rochas, dando a sensação de que no momento de sua criação o artista estivesse num momento de raiva, inquieto descrevendo a fúria do mar nos rochedos.
B – Hooked – Starlash – Não vejo esse quadro como uma retratação de morte em seu sentido literal, mas no fato de como tem feito a infância sumir da vida das crianças (por conta do bichinho de pelúcia jogado) e fazendo com que elas tornem-se apenas mais um ser sem importância ou perspectiva de futuro, uma vez que estão dividas em tipos de carnes como faz-se em um boi para consumo.
C – Elephant – retrata tristeza, vejo um filhote que teve sua mãe tirada, fato esse que nunca será esquecido pelo filhote, visto a já comprovada boníssima memória desse animal.
D – Caress – Vejo paixão, entrega, troca (energia, sensações e afeto).
E – Heaven on Earth – paz, tranqüilidade, fuga, lugar ideal para fugir de tudo e todos, quando a única coisa que você deseja é ficar sozinho com seus pensamentos.

* Gper Aeon é professor, crítico de arte e cultura.

Publicado em Número 1 - julho 2010 | Deixe um comentário